Santa Dulce: o espírito de servir e acolher!

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No dia 13 o Papa Francisco canonizou a Beata Dulce dos Pobres. Agora Santa Dulce dos Pobres, o anjo bom da Bahia tornou-se agora universal. No domingo seguinte, dia 20 de outubro, 29º. Domingo do Tempo Comum, participamos em São Salvador da Bahia, concelebrando a Missa Solene de Ação de Graças pela elevação às honras dos altares de Santa Dulce dos Pobres. O povo baiano deu um belo testemunho de participação de alegria nessa grande celebração. No próximo dia 26 teremos a ocasião de celebrar essa ação de graças aqui no Rio de Janeiro acolhendo e agradecendo a Deus pela sua vida.

Ouvindo, revendo, lendo, assistindo mensagens de Santa Dulce que foram universalmente divulgadas nestes dias o que mais me impressionou na alma e no apostolado de Santa Dulce que ela rezava e vivia intensa vida espiritual acolhendo os doentes, dando-lhes acolhida no seu Hospital, a qualquer hora e em qualquer dia do ano, recolhendo as crianças abandonadas, dando-lhes carinho, amor, atenção e a graça de Deus pelo seu sorriso largo e pela sua generosidade.

Interessante a sua santidade, o seu bom humor, em que quando o Hospital Santo Antônio estava lotado ela oferecia ao doente que chegava que só tinha vaga no “necrotério”. Assisti a um depoimento em que a pessoa que estava deitada, no chão, com um defunto esperando a sepultura o próprio doente diz: “Eu prefiro ficar aqui, porque tenho remédio, comida, vou curar a minha doença e ainda estou rezando pelo nosso irmão que está aí em cima!”.

A caridade de Santa Dulce foi erga omnes, ou seja, para todos: pediu aos poderosos, aos ricos, aos governadores, aos presidentes, e, andando pela parte baixa de Salvador pedia para os seus pobres. Quando recebeu, certa feita, ao levantar a mão pedindo na feira um alimento para seus pobres, o feirante “cuspiu em sua mão” ela não se intimidou e disse: “esse foi para mim, agora me dá um alimento para os meus pobres”.

A fé realmente move montanhas. É lógico que sempre haverá caridade e bondade quando tivermos pessoas que sigam o exemplo, a vida e o testemunho da pequena e franzina freira, o Anjo Bom da Bahia, a Santa Dulce dos Pobres, a Santa do Brasil.

Santa Dulce representa a caridade cotidiana: a caridade diária, aquela persistente, de curar os doentes, de oferecer-lhes dignidade e de anunciar, pelo seu testemunho, a Palavra de Deus. A ação caritativa de Santa Dulce foi a mais eloquente evangelização que uma pessoa fez em vida, cuidando dos pobres e curando os corações feridos.

Irmã Dulce mesmo declarou: “Quando eu virei freira a minha cabeça estava mais mirada em ajudar os pobres. E, naquela época, todo mundo estranhava porque eu vivia o dia todo na rua. O povo falava que não era certo para uma religiosa viver o dia todo na rua. Mas eu tinha licença, por escrito, da madre geral para me dedicar a essa vida. Interiormente, eu sabia que era isso que Deus queria que eu fizesse, um apostolado direto com o povo”, disse a freira em 1989 em entrevista para o documentário Mãos Carinhosas, produzido pela TV Canção Nova.

O Arcebispo Primaz do Brasil, Dom Murilo Sebastião Ramos Krieger, SCJ, declarou: “Os santos sempre foram subversivos. Eles sempre destacaram valores que a gente não percebia, mas acima de tudo sempre no sistema da caridade. Eles não buscavam fama nem reconhecimento. Eles buscavam a melhor forma de atender ao necessitado. E, às vezes, a autoridade religiosa da época não tem a mesma visão. Os santos têm a capacidade de serem a voz de Deus na terra. Eles vão chamar a atenção da sociedade de valores que não são comuns. No começo, estremece porque os santos são subversivos, mas eles abrem novos horizontes”.

Doentes, albergados, deficientes e órfãos: o trabalho assistencial de Santa Dulce que respirava com apenas 20% da capacidade pulmonar, atingiu proporções ainda maiores nas três décadas seguintes, sendo definido pela própria freira como “a última porta” a quem recorrem os menos assistidos.

A atualidade da santidade de Santa Dulce está em fazer a qualquer pessoa o bem. A sua obra assistencial continua pela OSID, atendendo por ano mais de dois milhões de pessoas, no Hospital Santo Antônio. E a obra de Santa Dulce continua no seu espírito: em qualquer hora e em qualquer dia acolher os mais humildes e doentes e oferecer-lhes acolhida, saúde e alívio para as doenças do corpo e da alma. E todo o trabalho de Santa Dulce era e continua pelas suas sucessoras sendo feito em profundo espírito de fé e de oração. Servir, acolher, alimentar, curar sempre em profundo espírito de unidade com o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Nunca, a exemplo de Santa Dulce dos Pobres, nos fechemos em nós mesmos. Ao contrário sejamos o bom odor do Cristo que cuida, que perdoa, que acolhe, que cura, e que nos envia para sermos discípulos-missionários.

Santa Dulce dos pobres, anjo bom do Brasil, rogai por nós!

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro (RJ)